O Conto: Abu Kasem e seus Sapatinhos
- sitesconex
- 19 de jan.
- 2 min de leitura

O Personagem e seu Pecado
Abu Kasem era um rico comerciante de Bagdá, conhecido por duas coisas: sua imensa fortuna e sua avareza extrema . Sua maior marca eram seus sapatos: remendados tantas vezes, com tantas camadas de couro e pregos, que se tornaram enormes, pesados e deformados. Em Bagdá, os "sapatos de Abu Kasem" eram motivo de piada e sinônimo de mesquinhez.
Uma Tentativa de Descarte
Certo dia, após uma série de eventos em que ele é confundido com um mendigo por causa de sua aparência, Abu Kasem decide que é hora de se livrar dos velhos sapatos. O problema é que os sapatos "não querem" deixá-lo :
Ele os joga no rio Tigre, mas eles ficam presos na rede de um pescador que, irritados ao pensar que pescaram um tesouro, liberam os sapatos e os devolvem jogando-os pela janela de Abu Kasem, quebrando seus cristais preciosos.
Ele tenta enterrá-los no jardim, mas os vizinhos acham que ele está escondendo um tesouro, denunciam-no e ele é multado por califa.
Ele os joga em um canal, entupindo o fluxo de água, o que causa uma inundação e mais multas pesadas.
Cada tentativa de se livrar do seu "passado" e de sua "avareza" resulta em um desastre financeiro que consome uma fortuna que ele tanto tentou proteger.
O Clímax
Desesperado, Abu Kasem vai ao tribunal e implora ao juiz que emita um documento oficial declarando que ele não tem mais nenhuma conexão com seus próprios sapatos . Ele tenta se desvincular legalmente de uma parte de si mesmo.
Reflexão: O Peso do que Criamos
Diferentemente de Rei Vikram, que carrega um cadáver desconhecido, Abu Kasem carrega algo que ele mesmo construiu. A reflexão de Zimmer foca nos seguintes pontos:
A Sombra Materializada: Os sapatos são a "Sombra" de Abu Kasem. Eles representam sua ganância e sua recusa em se renovar. O conto mostra que não podemos simplesmente “jogar fora” partes do nosso caráter ou do nosso passado sem um trabalho interno real; eles sempre "voltam" para nos assombrar através do destino.
O Apego que Escraviza: Abu Kasem amava seu dinheiro, mas os sapatos (o símbolo de sua negação em gastar esse dinheiro) acabou por destruir sua riqueza. É uma ironia cósmica: o que você tenta segurar com muita força acaba sendo o instrumento da sua perda.
A Identidade Inevitável: Por mais que ele tente o documento legal de seus sapatos, o mundo inteiro os registra como "dele". Isso sugere que nossa confiança e nossas ações criam uma "forma" no mundo que não pode ser apagada apenas por vontade superficial.
Enquanto Rei Vikram domina o cadáver através da coragem, Abu Kasem é dominado por seus sapatos através da negação.
Este conto é uma transição perfeita para as histórias, que tratam de como a nossa identidade é moldada pelas coisas que possuímos — ou pelas coisas que nos possuímos.


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